Palestra discute protagonismo e autonomia dos usuários e familiares em Saúde Mental

Nesta terça-feira, 16, o auditório 1 da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (FS/UnB) recebeu o professor Eduardo Mourão. O evento, em celebração à Semana da Luta Antimanicomial 2017, foi organizado pela Diretoria de Saúde Mental (Disam/DF) e o Observatório de Saúde Mental (Obsam-UnB) com apoio do Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes (Cecria). Sob o tema “Protagonismo e autonomia dos usuários e familiares em Saúde Mental”, Mourão contou a sua experiência no projeto Transversões, da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ESS/RJ).

Com a participação de trabalhadores, comunidade e usuários de serviços de saúde mental de Ceilândia e Taguatinga, o auditório pode se emocionar quando, na abertura, os usuários tiveram a oportunidade de recitar poesias e agradecer seus psicólogos e psiquiatras, que estavam presentes, pelo cuidado e luta contra a discriminação. Houve uma composição simbólica da mesa onde estiveram presentes Mariana Farias, psicóloga e gerente do  Centro de Atendimento Psicossocial de Ceilândia (CAPS-AD 03); Ana Luiza, representante da Disam-DF; Maria da Glória, do Obsam; Karina Figueiredo, do Cecria; e Thiago Rodrigues, representando os usuários.

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Mourão discorreu a respeito da sua vida acadêmica e de como ela esteve entrelaçada ao seu engajamento no movimento antimanicomial. Em 1987, quando foi fazer doutorado na Inglaterra, ficou impressionado com o trabalho realizado nos países de língua inglesa. Além de ideias consideradas radicais por promoverem a concepção de que os próprios usuários deveriam estar à frente dos serviços de saúde, havia também o entendimento de que a recuperação não significa, necessariamente, cura, mas sim propiciar qualidade de vida, independência, vida social ativa e com significado a partir de oportunidades de emprego, estudo e moradia para que os usuários possam ter uma vida normal.

Quando voltou para o Brasil, em 1992, o movimento antimanicomial estava em expansão, o Sistema Único de Saúde (SUS) estava em fase inicial de implementação e, a partir de então, houve um processo gradual de fechamento de hospitais psiquiátricos, à medida em que fosse possível oferecer outros serviços de apoio, como o Caps. Em 2001, foi implantada a Lei 10.216, que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental, aumentando as políticas de saúde mental no Brasil.

Em 2005 começaram a aparecer projetos concretos de apropriação, inspirados por medidas estrangeiras, como o Projeto Narrativas; os primeiros grupo de Ouvidores de Vozes; o guia GSM: Gestão Autônoma de Mediação; Familiares Parceiros do Cuidado; e, Comunidade de Fala. Atualmente Mourão desenvolve, no Rio de Janeiro, grupos de ajuda e suporte mútuos. Essas associações de usuários e familiares contam com estrutura pequena e fraca, que depende exclusivamente de seus componentes. Segundo Mourão, esse problema se deve ao alto grau de desigualdade da sociedade brasileira, que privilegia pessoas de classe média alta que não utilizam o SUS.

Os grupos de ajuda mútua são divididos em usuários e familiares, os próprios integrantes ficam à frente das reuniões, realizadas na própria comunidade em espaços como escolas, bibliotecas, abrigos e associações. Com duração de 2h, os encontros promovem acolhimento, apoio emocional e esperança de uma vida melhor e mais ativa. Além da oportunidade de fazer amizades, já que o transtorno pode causar isolamento. Outro fato importante é a troca de informações, experiências e estratégias de como lidar com os problemas.

Lorany Stefanny,
ComunicaFS